Junia
de Vilhena é responsável por núcleo de estudos sobre o envelhecimento em sua
dimensão psíquica e social
Junia
de Vilhena é doutora em psicologia e coordenadora do LIPIS, o Laboratório
Interdisciplinar de Pesquisa e Intervenção Social, na PUC-Rio. Ali funciona o
Envelhecentro, núcleo de estudos que tem como objetivo abordar os problemas do
envelhecimento em sua dimensão psíquica e social, e que mantém uma parceria com
a Universidade de Coimbra desde 2012.
Na
opinião da professora, o Brasil está mergulhado num clima de gerontofobia:
“parece que ser velho é deselegante”, ironiza. “As pessoas vivem em estado de
negação, como se não fossem morrer. Velhice não é diagnóstico que demande
intervenção terapêutica, mas é comum que os velhos que nos procuram se queixem
de estar ‘sofrendo de velhice’”, completa. O atendimento a pacientes é feito em
rodas de conversa, nas quais a prioridade é ouvir o que os idosos têm a dizer.
Os temas mais recorrentes são a perda do poder aquisitivo depois da
aposentadoria; doenças crônicas e as limitações que trazem; e conflitos nas
relações familiares, principalmente o afastamento dos filhos.
Junia
de Vilhena: velhice não é diagnóstico que demande intervenção terapêutica
Segundo
Junia, uma sociedade que valoriza apenas a juventude só tem a perder. Por isso
propõe uma reflexão sobre a diferença entre juvenilidade e jovialidade: “a
juvenilidade é biológica, está ligada à idade. Já a jovialidade é existencial e
simbólica. Jovialidade vem de Júpiter, jovis no latim, se inscreve numa
condição divina. Trata-se de um outro nome para a alegria, para a aceitação da
vida tal qual ela nos aparece. Jovens e velhos se encontram na alegria da
jovialidade”. No entanto, explica que o chamado “valor simbólico” do indivíduo
diminui com o envelhecimento, colocando-o à margem: “o velho não é mais visto
como depositário do saber. Num primeiro momento, envelhecer parece ser pior
para a mulher, já que o modelo feminino está calcado na beleza, na estética.
Entretanto, a médio e longo prazo, o risco acaba sendo maior para os homens,
que ainda atrelam sua identidade ao trabalho. Quando essas insígnias do
ambiente profissional são retiradas, com frequência ele não tem outra rede de
proteção onde se apoiar. As mulheres, mesmo as que têm uma carreira e trabalham
fora, detêm o domínio do espaço da casa, além de uma maior capacidade de se
relacionar”.
Em
maio, ela foi palestrante no Congresso Internacional sobre Envelhecimento,
realizado na Coimbra Business School, e chamou a atenção para o preconceito em
relação à sexualidade e à homossexualidade de idosos. Lembrou a polêmica
causada pelas personagens de Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg na novela
“Babilônia”: “avós não devem fazer sexo, e com alguém do mesmo do mesmo sexo é
impensável”. Afirma que a reinvenção da velhice terá que ser um processo
coletivo: “há muitas perdas, não somente de cônjuges, familiares e amigos, mas
relativas ao próprio corpo. É preciso viver o luto, mas também descobrir e
redescobrir prazeres, como as coisas de que gostávamos e nas quais não
investimos porque era preciso trabalhar e criar os filhos. É preciso
ressignificar as representações acerca da própria vida e da posição social e
simbólica do velho na sociedade”.
Por Mariza Tavares, Rio de
Janeiro